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Duas atualizações pra hoje:
1) D-BOX Technologies (TSX: DBO)
A D-BOX divulgou seus resultados do FY2026. Vamos dar uma olhada no que a empresa entregou e conhecer um pouco melhor o negócio.
Os números
Receita FY2026: CA$57,6 milhões (+35% YoY) — ano recorde
Receita do 4T: CA$14,7 milhões (+70% YoY) — trimestre mais forte da história da companhia
EBITDA adj FY2026: CA$15,5 milhões (+112% YoY), com margem de 27% (vs. 17% no FY2025)
Adição líquida de telas: 189 (66 apenas no 4T) — recorde
Caixa: CA$17,6 milhões; dívida praticamente zerada
Programa de recompra ativo
O flywheel
A D-BOX projeta, fabrica e comercializa sistemas hápticos de movimento para cinemas, simuladores de corrida e aplicações de treinamento e simulação. Hoje, o principal foco da empresa é expandir sua presença no mercado de cinemas.
Cada nova tela instalada se torna um ativo de royalties de alta margem, gerando receita recorrente a cada ingresso vendido, com praticamente nenhum custo incremental. Neste ano, as receitas de royalties cresceram 32%, enquanto as bilheterias na América do Norte avançaram apenas 7%.
Essa diferença resume bem a tese. A base instalada está crescendo muito mais rápido do que as oscilações na venda de ingressos, fazendo com que os royalties cresçam muito acima da bilheteria. O crescimento hoje está sendo muito mais impulsionado pelo número de telas instaladas do que por quantas pessoas foram assistir a O Diabo Veste Prada ou seja lá qual for o filme do momento.
Os cinemas estão tratando a D-BOX como oportunidade de alocação de capital para maximizar a receita por assento. Nas palavras do CEO:
“A D-BOX é uma experiência premium altamente escalável que ajuda a maximizar a receita por cliente ao oferecer uma experiência imersiva única para públicos de todas as idades.”
Mais telas → mais royalties → mais caixa → mais telas. Tudo isso enquanto os custos fixos são diluídos ao longo do caminho. O modelo se retroalimenta e o ciclo está funcionando.
Mudanças em 2026
Primeiro, a D-BOX anunciou em FY2026 seu programa de recompra de ações, equivalente a aproximadamente 9,5% do free float. O fato de a gestão se sentir confortável recomprando ações enquanto continua adicionando telas em ritmo recorde diz um pouco sobre como ela enxerga o negócio. A linguagem da companhia também mudou, passando a enfatizar uma “alocação disciplinada de capital focada na criação de valor de longo prazo para os acionistas”.
Segundo, as despesas operacionais cresceram apenas 6%, enquanto a receita avançou 35%. Isso não é mero corte de custos. É um modelo de negócios revelando sua alavancagem operacional. As margens EBITDA saltaram de 17% para 27% em apenas um ano.
O que acompanhar
Nem tudo é perfeito. Os segmentos de sim racing e simulação recuaram pelo segundo ano seguido. Juntos, passaram de 44% para 28% da receita total. Mas isso é, de certa forma, esperado, já que a D-BOX está passando por uma mudança estrutural de mix.
As margens brutas do 4T recuaram 600 bps porque as vendas de sistemas (='hardware de menor margem') dominaram a composição da receita, representando 53% da receita trimestral contra ~12% um ano antes. Justificável pelo forte ritmo de novas instalações.
Olhando para FY2027, pretendo acompanhar o ritmo de adição líquida de telas, o crescimento da base de royalties em relação à bilheteria e a execução do programa de recompra, que pode criar bom valor para os acionistas.
Conclusão
A D-BOX passou por uma reformulação completa da gestão em 2025. Depois de uma campanha ativista de três anos liderada por Daniel Marks, o conselho foi substituído e um novo CEO e CFO foram nomeados com poucos meses de diferença. A mudança foi decisiva. Em vez de priorizar a venda de hardware, a nova gestão reposicionou toda a empresa em torno do motor de royalties.
Os resultados são impossíveis de ignorar. A principal questão agora é se a adição recorde de telas neste ano foi um novo patamar ou um pico. A oportunidade sugere que ainda existe um campo aberto de crescimento pela frente. Só na América do Norte, são cerca de 42 mil telas de cinema. Globalmente, são mais de 200 mil. A D-BOX está presente em apenas 1.200 delas, menos de 1% do mercado mundial.
A ~13x EBITDA, o mercado não parece precificar um motor de royalties crescendo acima de 25% ao ano. Além disso, a empresa tem um bom escudo fiscal por causa de alguns prejuízos passados (antiga gestão), o que significa que a D-BOX vai ficar mais alguns anos sem pagar imposto. Ruim para o governo, bom para os acionistas.
A preocupação mais comum é a concentração de clientes. A Cinemark representa quase metade de todas as telas ativas e a maior parte das adições recentes. Se essa relação enfraquece, a história de crescimento desacelera. Pessoalmente, não me preocupa tanto. A D-BOX gera bom ROI para os cinemas, o que cria um incentivo econômico para manter e expandir a parceria. Além disso, a empresa está diversificando sua base de clientes. Em 3 de junho, anunciou uma nova parceria com a B&B Theatres. Ainda assim, conquistar uma segunda grande rede como a AMC seria importante. Até lá, vale reconhecer o risco.
No geral, FY2026 foi um ano muito forte para a D-BOX e mais uma evidência de que a transformação está funcionando.
2) Tasmea $TEA.AX
A Tasmea é uma empresa australiana de serviços industriais especializados que possui e opera diversos negócios voltados aos setores de mineração, energia, infraestrutura, água e defesa. Pense nela como uma serial acquirer de empreiteiras essenciais. O modelo é simples: comprar pequenas empresas lideradas por seus fundadores, pagar múltiplos razoáveis e deixa-las operando de forma descentralizada. A companhia é liderada pelo seu co-fundador Stephen Young, que tem ótimo histórico executando essa estratégia.
Na última semana, a Tasmea fez dois anúncios que, juntos, contam uma história bem clara sobre para onde o negócio está caminhando.
Em 2 de junho, a empresa anunciou a aquisição do Maxim Group, uma empreiteira elétrica especializada, por A$254 milhões (cerca de 5,4x EBIT). A Maxim traz exposição direta a três mercados australianos que estão em alta: data centers (sim, Tasmea entrou em data center!), sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) e grandes projetos de infraestrutura.
A receita da Maxim cresceu ~70% aa nos últimos dois anos e ela possui mais de A$1,3 bilhão no pipeline. Post-deal, o segmento elétrico da Tasmea sozinho deverá gerar ~A$100 milhões em EBIT. O deal adiciona 31% ao EPS, enquanto a alavancagem líquida permanece abaixo de 1,0x, ou seja, respeitando a meta da companhia.
Dois dias depois, a Tasmea anunciou um dividendo especial de 10 centavos por ação com possibilidade de DRP (Dividend Reinvestment Plan) por A$6,85/ação. Além disso, a gestão reafirmou seu guidance e destacou que o dividendo não vai comprometer as iniciativas de crescimento nem a capacidade de realizar novas aquisições. Bela sequência de fatos. Poucos dias depois de anunciar uma aquisição de A$254 milhões, a Tasmea devolveu capital aos acionistas sem alterar seus planos de crescimento.
Achei a aquisição da Maxim excelente, e o mercado concordou dessa vez, fazendo as ações subirem mais de 15% no dia do anúncio. O papel praticamente dobrou de valor neste ano e negocia próximo das máximas históricas. Ainda assim, o valuation não vai parecer nenhum exagero se a Tasmea continuar fazendo aquilo que tem feito tão bem: adicionar EBIT barato e de qualidade.


